quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Carta a Deus


Senhor, ontem falaste comigo de maneira extraordinário, me exortou, corrigiu, admoestou.
             Cada palavra, cada advertência, entravam cortantes por meus ouvidos, foi então que comecei minha oração silenciosa, pedindo para que cada palavra não se perdesse. Pedi maior luz para que tudo o que já fazendo sentido ficasse ainda mais claro.
            Compreendo que mesmo errante o Senhor me ama, de tal maneira que me alerta com os perigos e armadilhas que tenho intentado contra a minha própria vida.
            Pai, ao que entendi, a raiz de amargura que permiti semear em meu coração com a falta de perdão e o rancor dos meus erros passados, criaram uma barreira entre eu e ti, um escudo que criei com a intenção de proteger minha dor, minha ferida, mas esse escudo tem feito inflamar e piorar o meu câncer espiritual que latejam e gotejam dia e noite, me impedem de receber a cura do divino, me impedem de receber os raios enternecedores do criador, de sentir o seu AMOR, de receber alivio e refrigério na tua sombra.
           Estou cansada, me sinto prostrada, me sinto insegura, me sinto impotente, fraca, desconsolada, perdida e desorientada, minha alma esta abatida dentro de mim. A quem possa entender e sentir minhas dores?
           Sou julgada e subjugada, temo as pessoas e a crueldade da capacidade humana, temo ser traída, roubada, desamparada.  Construí um castelo de miséria sem fim, fiz um império de pura vaidade, e o que é afinal a vaidade? É nada mais do que correr atrás do vento...
          Às vezes tenho a sensação absurda de temer a própria vida! Estou inundada, deprimida, decepcionada. Corri por muitos dias atrás do vento, o que me restou? Nada!
          Honro-te com os lábios, mas meu coração? Não entrego a ti, não eu não o faço, sou boa com as palavras e uso minhas racionalizações como um método elegante de fuga, é a maneira que encontrei para fugir, fugir, fugir e fugir do que realmente atormenta a minha alma! Racionalizar é interessante é um mecanismo de fuga que consegue de maneira extraordinária anestesiar minha ferida aberta, assim como alterno entre a racionalização, sublimação e repressão!
         Reprimir meu câncer alojado entre as artérias do meu coração é como negar a existência dele, na verdade é mais profundo do que simplesmente nega-lo, é por breves momentos esquecer-se de que eles existem, mas como a repressão é insana para uma intelectual desesperada, me atenho à sublimação das minhas dores, tentando de alguma maneira me distrair ou abraçar causas e coisas, para me tirarem do foco da minha dor, só que o que acontece? Resolve? Sim, mas paliativamente, não cura, só me distrai por um curto período de tempo, o tempo necessário para que algo, alguém ou alguma coisa me acione um alerta de emergência das dores mal curadas que me amarram e aprisionam.
         É como caminhar por longas horas, correr exaustivamente e não sair do lugar é patinar em círculos! É doloroso tudo isso, mas como diz Eclesiastes, é melhor o pranto do que o Gozo é melhor um rosto contrito pela dor que o regozijo vão. A dor refina o coração certo?
         Não gosto da lamuria, mas mesmo não gostando sei que é necessário vivê-la, porque hoje é uma oportunidade, de sentir profundamente minhas dores, eu em fim preciso sofrer tudo, preciso chorar a perda, lamentar a dor dos meus erros, preciso sentir minha ferida aberta, preciso deixa-la arejar para que ela seque, não posso mais abafar tudo isso, porque quanto mais construo um império de vaidades que escondem minha impotência e chagas, mais isso tudo inflama, piora e se alastra.
         O câncer é assim não é? Um câncer não tratado pode virar uma metástase e em seguida? Pode tornar-se algo tão irreversível que possivelmente seu destino seria a morte! Embora a morte seja desejável, não quero morrer! Ao menos não assim! Quero ao menos partir com um legado, o legado da salvação, quero redenção, e poder desfrutar do melhor de tudo aquilo que ele conquistou com dores por mim, quero poder desfrutar da oportunidade de que me foi lançada pelo soberano, de tê-lo eternamente concedendo em fim paz de espirito a minha alma abatida, um amor enternecedor que aquece o coração de modo sobrenatural, que faz a alma regozijar como uma fonte que não para de jorrar suas aguas.
        Quero sentir esse amor poderoso correr por sobre as minhas veias, artérias, pulmão e coração, quero experimentar o poder soberano do divino, enchendo e iluminando todo o meu ser de maneira esplêndida como viveram e sentiram os mártires da fé, que puderam experimentar um amor tão poderoso, que as dores, pestilências e açoites deste corpo não significavam nada comparado a paz que o eterno concedia a esses filhos.
        Quero te amar Deus, quero sentir-me em paz novamente, sentir-me livre, alcançada pelo teu amor, aquecida envolto a tua presença. Quero um coração novo, porque esse meu Esta como uma pedra, intocável, impenetrável e sem vida. Tu és o único medico que conheço que pode fazer cirurgias de corações, trocando a pedra por carne, troca o meu? Sopre novamente a vida em minha vida, não se distancie de mim.
         Eu sei, eu sei SENHOR, meus lábios o horam com o poder do meu intelecto, minha mente não se desconectou do trono da tua graça, eu conheci e experimentei os teus caminhos, embora a memoria do meu coração seja falha e entorpecida em trevas, a memoria da minha mente me prende a recorrer a ti, por tantas e tantas vezes, clamei, clamei, e clamei varias vezes de modo formal, com minhas razoes, com o poder das minhas racionalizações, pois minha mente sabe e sempre esteve convencida de sua existência, do seu amor e da redenção que o SENHOR concede aos teus filhos, mas o meu coração esteve longe do trono da tua graça e não o tem experimentado.
         Embora eu buscasse, buscasse e buscasse por minha mente reconhecer que eras tu o melhor refugio, o meu coração não o fazia, meu coração rebelde que se rebelou de servi-lo no momento em que congelou com uma raiz terrível de amargura, pranto e ódio, não poderia se inclinar ao DEUS dono do Amor, da redenção, do perdão, benevolência e compaixão.
          Meu coração não só não podia se curvar a esse contraste gritante, como não podia se submeter a sentir nada do que o SENHOR tem a oferecer, da tua paz não desfrutei, da tua unção, do teu poder, do teu amor, nada! Nada! Tudo tornou-se nulo e impenetrável.
        Então entendi que uma pedra não poderia sentir amor certo?
         Por isso esse rogo de misericórdia, ore por mim SANTO ESPIRITO interceda incessantemente por minha alma abatida, ferida, humilhada, prostrada, cansada, levante tanto quantos puderes para clamar por minha pequena vida. Levanta-me das trevas com o qual me cerquei, tira-me a velha roupa, lava-me desse corpo sujo do pecado, dá-me de comer, dá-me de beber, é o que minha alma pede, fome e sede é o que sinto. Sede de paz, fome de DEUS.
        Quero tirar as roupas que num olhar de trevas assombrosamente pareciam roupas portentosas, mas diante da tua luz, tornam-se tudo trapo de imundícia. Minha vaidade tem corrompido minha essência, e pouco a pouco sei que ela migraria aos níveis mais baixos corrompendo o caráter e os valores. Por isso reconheço quando sua voz me alerta e atenta a esses perigos, ouço sua admoestação que me faz tremer e chorar, e suplico socorro.
Me ajuda.