segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Rememória

Lembrei de você, enquanto conversava com meu amigo antes de dormir. Ele me fez lembrar do pedacinho de história que dei a você. Dos 16% de vida e tempo que despojei na sua companhia. Isso me fez lembrar que te odiei muito. Me fez doer, e ter de reconhecer que sufoquei por esses meses todos o meu real sentimento. ódio misturado com rancor. Chorei tudo de novo. Revivi a amargura de seus sintomas. Do restolho resultante de nós dois. Do sabor de ser finamente ludibriada e envolvida nas tramas de suas urdiduras. Tanta inteligência desperdiçada. Tanta concludência atrelada a persuasão imoral. Se rendesse todo esse potencial a nobreza do reino celestial, tão poderosamente seria em utilidade para a causa. Todavia, inclinou-se para o mal de suas enfermidades. Isso me faz refletir uma certa piedade, misturada de inconformação indignante. Por tanta culpa. Culpa por render-me a esse assalto diurno. Por demorar-me a sair de seu embusteiro. 
Mas, finalemente, me pus pronta a reconhecer a veracidade de minha incapacidade de perdoá-lo. De perdoar-me.
Percebendo finalmente a ferida mal curada que ainda me assombrava, entendi a razão da nostalgia vacilante, das cólicas gélidas, ao ter de perpassar por você. Talvez por isso postergo inconscientemente meu sorriso amigável. Por sinceramente não estar nada amável com relação a sua presença e a tudo o que ela representa.
Sei que essa rememória me foi posta para em fim lavar-me do corpo dessa morte. Pois só após reconhecer as verdades ocultas em minha recâmara secreta, pude retirá-la dessa proteção egóica. E em fim... Tratá-la. Finalmente. Mexer no cerne condoído é sempre sofrível. Pedir a Deus o antidoto capaz de curar-me é sem dúvida, o recurso mais eficaz. Por isso essa noite, se fez noite especial. Graças ao meu amigo, que ao conduzir-me a rememória das sórdidas lembranças que me faziam vacilante, expor então, minhas dores mais profundas ao autor da vida. Da minha vida.