quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Separação




Separados da graça divina, somos forçados a experimentar o pior desamparo. O desamparo do único amor que pode preencher o cerne profundo da carência humana. Por causa da infeliz escolha de Eva em condescender com sua soberba, toda a humanidade geração após geração tem provado o sabor amargo de sua terrível e dolorosa ação.
Dor cruel e dilaceradora...
Hoje me vejo provando desse cálice doído. Por consequência de sua escolha, sou forçada a sentir as agulhadas dessa maldição.
Eu sei que casais se separam o tempo todo. Famílias se desfazem, pais matam filhos e filhos aos seus pais. Homens roubam, maquilham, enganam. Tantas são as tragédias, discórdias, violência. Tanta fome, escassez, doenças e mortes. São tantas as pestilências que nos assola entre o inflar e esvazar dos pulmões. Que sufoca !
Sei que meu queixar dolorido de uma família "formalmente" desfeita, é facilmente compreendido como grão de areia despercebido num vasto mar. Sei que entrever como banalidade qualquer, é a forma mais simplista de negar o sofrer, o ver, e o enlutar.
Mas.. sei que Ele vê, ouve , sente e faz ! Suas mãos acolhedoras é tudo o que quero. É tudo o que pode mensurar as ferpas perpassada por entre os pontos cardeais desse meu coração condoído. Entremeado de uma trêmula convicção sofrível.
Lamentável. Não era plano de Deus que as famílias se desfizessem! mácula ou mancha. definitivamente não era o seu plano original.
Meu consolo é que sei que ao meu lado o Eterno esta.. Suas mãos são tão ternas, e em sua ternura vejo minhas lágrimas se enxugar. A turbulência dos meus sentimentos, dos pensamentos que me congestionam e fazem meu mundo girar. Lanço-os no amparo da âncora que me segura. Ele é o Alfa, Ele é o Ômega. 




Gratidão por esse amor que não se explica... Mas salva.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Rememória

Lembrei de você, enquanto conversava com meu amigo antes de dormir. Ele me fez lembrar do pedacinho de história que dei a você. Dos 16% de vida e tempo que despojei na sua companhia. Isso me fez lembrar que te odiei muito. Me fez doer, e ter de reconhecer que sufoquei por esses meses todos o meu real sentimento. ódio misturado com rancor. Chorei tudo de novo. Revivi a amargura de seus sintomas. Do restolho resultante de nós dois. Do sabor de ser finamente ludibriada e envolvida nas tramas de suas urdiduras. Tanta inteligência desperdiçada. Tanta concludência atrelada a persuasão imoral. Se rendesse todo esse potencial a nobreza do reino celestial, tão poderosamente seria em utilidade para a causa. Todavia, inclinou-se para o mal de suas enfermidades. Isso me faz refletir uma certa piedade, misturada de inconformação indignante. Por tanta culpa. Culpa por render-me a esse assalto diurno. Por demorar-me a sair de seu embusteiro. 
Mas, finalemente, me pus pronta a reconhecer a veracidade de minha incapacidade de perdoá-lo. De perdoar-me.
Percebendo finalmente a ferida mal curada que ainda me assombrava, entendi a razão da nostalgia vacilante, das cólicas gélidas, ao ter de perpassar por você. Talvez por isso postergo inconscientemente meu sorriso amigável. Por sinceramente não estar nada amável com relação a sua presença e a tudo o que ela representa.
Sei que essa rememória me foi posta para em fim lavar-me do corpo dessa morte. Pois só após reconhecer as verdades ocultas em minha recâmara secreta, pude retirá-la dessa proteção egóica. E em fim... Tratá-la. Finalmente. Mexer no cerne condoído é sempre sofrível. Pedir a Deus o antidoto capaz de curar-me é sem dúvida, o recurso mais eficaz. Por isso essa noite, se fez noite especial. Graças ao meu amigo, que ao conduzir-me a rememória das sórdidas lembranças que me faziam vacilante, expor então, minhas dores mais profundas ao autor da vida. Da minha vida.